📅 Agosto de 2026
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Estigma da IA nos games: jogos com conteúdo artificial já são 30% dos lançamentos da Steam, mas enfrentam rejeição

Por Douglas Marques
03/08/2026
9 min

Enquanto a indústria de games debate publicamente os riscos da inteligência artificial, os números da própria Steam contam uma história difícil de ignorar: jogos com algum tipo de conteúdo gerado por IA já representam 30,8% de tudo lançado na plataforma em 2026. O crescimento é rápido — e vem acompanhado de um contraponto igualmente claro.


Plataforma Steam registra crescimento recorde de jogos que utilizam inteligência artificial. (crédito: Unsplash / CC0)



O crescimento do uso de algoritmos generativos na criação de jogos é rápido — e vem acompanhado de um contraponto igualmente claro, revelado com força total numa polêmica que estourou nesta semana envolvendo o estúdio por trás de Stellar Blade.

Os números por trás da explosão



O levantamento mais completo sobre o tema até agora foi conduzido por Sulka Haro, desenvolvedor com passagem pela criação do clássico Habbo Hotel e hoje CEO do estúdio Mainframe Industries. Publicado em seu Substack sob o título "Three years of AI on Steam", o estudo analisou um censo completo — não uma amostra — de 53.597 jogos lançados na plataforma entre julho de 2023 e julho de 2026.



La curva de crescimento é expressiva: em 2024, primeiro ano em que a Steam passou a exigir que desenvolvedores declarassem o uso de IA generativa, apenas 10,9% dos jogos lançados tinham essa marcação. Em 2025, o número saltou para 19,9%. Neste ano, considerando os lançamentos até julho, a proporção já chegou a 30,8% — e a projeção do próprio estudo é que mais da metade de todos os lançamentos da Steam venha a usar algum nível de IA generativa até 2027 ou 2028.

Nem toda publisher está entrando nessa onda




O uso de IA generativa se concentra em testes pontuais e em gêneros específicos de jogos. (crédito: Unsplash / CC0)



Antes de imaginar um cenário de "apocalipse de lixo digital" tomando conta da loja, vale um contraponto importante que o próprio estudo de Haro traz: o crescimento não está distribuído de forma uniforme entre as quase 37 mil publishers ativas na Steam. Cerca de 80% delas nunca lançou um único jogo com conteúdo de IA declarado. E, entre a minoria que lançou, a esmagadora maioria publicou exatamente um título do tipo — sugerindo experimentação pontual, não uma adoção estrutural da tecnologia em toda a produção.



O levantamento também derruba um mito comum: a IA não está distribuída igualmente entre os gêneros de jogos. Ela se concentra fortemente em jogos de cartas, simulações econômicas e títulos baseados em texto, e é quase ausente em produções que dependem de um estilo visual mais artesanal, como jogos com arte desenhada à mão — um indício de que a tecnologia hoje resolve melhor certos tipos de produção do que outros, em vez de substituir uniformemente todo o processo criativo dos games.

O preço de admitir o uso de IA



Se produzir com IA ficou mais fácil, transformar isso em sucesso comercial continua sendo outra história completamente diferente. Um estudo separado, conduzido pela Totally Human Media, encontrou uma correlação clara entre declarar uso de IA e receber notas piores: jogos com a marcação tiveram mediana de 84,6% de avaliações positivas, contra 88,3% entre os jogos sem IA declarada.



Outro levantamento aprofundou ainda mais esse ponto, encontrando quedas de até 53% nas avaliações e entre 40% e 60% nas vendas de estúdios já consolidados que optaram por declarar uso de IA em seus lançamentos. O efeito, segundo os próprios analistas responsáveis pelo estudo, funciona quase como um estigma: jogos de maior destaque e produzidos por publishers grandes parecem sofrer mais com a rejeição do público do que produções menores e menos conhecidas.

A polêmica que mostra esse estigma na prática




Estúdios grandes enfrentam as maiores taxas de rejeição e críticas do público ao utilizar IA em suas produções. (crédito: Unsplash / CC0)



Se os números ainda pareciam abstratos, um episódio desta semana deixou esse estigma bem concreto. Em 31 de julho, a ShiftUp, estúdio sul-coreano responsável por Stellar Blade, divulgou um videoclipe para a música "Wanna Be in LOVE", produzido com recursos do próprio jogo e criado com apoio do ShiftUp A.I. Labs, departamento interno da empresa dedicado a IA generativa.



A reação da comunidade de jogadores foi imediata e dura. Perfis conhecidos entre os fãs da franquia classificaram o resultado como sem inspiração, genérico e artificial — comparando-o publicamente a qualquer outro conteúdo raso produzido em massa por IA generativa. A repercussão negativa chamou até a atenção de Yoshikaze Matsushita, designer de personagens conhecido por seu trabalho em NieR: Automata, que também criticou o material publicamente. A ShiftUp precisou se desculpar diretamente com Matsushita para encerrar esse capítulo específico da polêmica.



O episódio já levanta dúvidas entre fãs sobre o quanto de IA generativa deve estar envolvido no próximo projeto da franquia, batizado de Stellar Blade: Blood Rain — um lembrete de como uma decisão de marketing aparentemente pequena pode acabar colocando sob suspeita um projeto inteiro ainda em desenvolvimento.

As regras (ainda incompletas) da própria Steam



A Valve, dona da Steam, exige desde janeiro de 2024 que desenvolvedores declarem publicamente se um jogo usa conteúdo gerado por IA, além de obrigar quem usa a tecnologia a comprovar que possui os direitos sobre o material usado para treinar os modelos envolvidos — uma resposta direta a preocupações sobre uso não autorizado de propriedade intelectual de terceiros no treinamento desses sistemas.



A regra, porém, tem uma brecha relevante: jogos que usam IA apenas para "ganhos de eficiência" interna, sem gerar conteúdo final visível ao jogador, não são obrigados a exibir a marcação — uma zona cinzenta que dificulta saber, com precisão, o real alcance da tecnologia dentro da produção de cada jogo. Mesmo estúdios de peso já foram pegos de surpresa por essa fiscalização incompleta: o aguardado Crimson Desert, por exemplo, precisou lidar com elementos gerados por IA que passaram despercebidos até a versão final do jogo, gerando questionamentos semelhantes aos vividos agora pela ShiftUp.

O que isso sinaliza para o futuro dos games



A tensão de fundo aqui não é nova, mas está ficando cada vez mais difícil de ignorar: a IA generativa reduz barreiras reais de produção, permitindo que desenvolvedores solo e estúdios pequenos lancem jogos que antes exigiriam equipes e orçamentos muito maiores. Ao mesmo tempo, uma fatia relevante e vocal do público continua tratando qualquer uso perceptível dessa tecnologia como sinal de descaso ou de corte de custos às custas da qualidade artística — especialmente quando o uso vem de estúdios grandes, que teoricamente já teriam recursos para produzir esse mesmo conteúdo sem depender de IA.



Não há, por enquanto, sinal de que essas duas forças estejam prestes a se equilibrar. Enquanto o volume de jogos com IA continua crescendo ano após ano na Steam, cada nova polêmica como a da ShiftUp reforça, para o restante da indústria, um aprendizado cada vez mais claro: usar IA generativa pode até acelerar a produção de um jogo, mas divulgar esse uso sem cuidado — especialmente em partes do produto mais visíveis ao público, como arte, música ou dublagem — continua sendo um risco comercial real, capaz de gerar mais dor de cabeça do que a própria tecnologia economizou em tempo de desenvolvimento.




Fontes: PC Gamer, Desafio Valorant, Adrenaline, Hardware.com.br, Manual dos Games, NotebookCheck, Substack de Sulka Haro.