O governo federal anunciou a liberação de R$ 140 bilhões adicionais para a Nova Indústria Brasil (NIB), impulsionando a política industrial do país a ultrapassar a marca histórica de R$ 750 bilhões desde 2023. O aporte, liderado pelo BNDES e pela Finep, coloca a Inteligência Artificial, a biotecnologia e a transição energética limpa no topo das prioridades nacionais.
O BNDES e a Finep lideram o novo aporte bilionário voltado para inovação e reindustrialização nacional. (crédito: Unsplash / CC0)
O Brasil acaba de dar um novo passo em sua política de reindustrialização, com um aporte bilionário que soma bilhões de reais a um programa que já vinha batendo recordes desde que foi lançado. Durante a cerimônia de comemoração dos 74 anos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro, o governo federal anunciou a liberação de R$ 140 bilhões adicionais para a Nova Indústria Brasil (NIB), a principal política industrial do país. Com o reforço, o programa ultrapassa a marca histórica de R$ 750 bilhões em recursos disponibilizados para investimento desde seu lançamento, em 2023 — um volume que coloca a iniciativa entre os maiores programas de fomento industrial já implementados no país em décadas recentes.
De onde vem o dinheiro
Do total de R$ 140 bilhões anunciados, a maior fatia —
R$ 102,5 bilhões — sai diretamente dos cofres do próprio BNDES, principal banco de fomento do país e um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo. Os R$ 37,5 bilhões restantes vêm da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, historicamente responsável por financiar projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em estágios iniciais, quando o risco costuma afastar o crédito privado tradicional.
Essa divisão entre as duas instituições não é aleatória: enquanto o BNDES tende a financiar projetos de maior porte e mais próximos da maturidade comercial, a Finep atua justamente na ponta mais arriscada da cadeia de inovação, apoiando ideias que ainda precisam provar sua viabilidade antes de atrair investimento privado em escala.
Segundo o presidente do BNDES,
Aloizio Mercadante, a ampliação dos recursos busca reforçar o apoio a setores considerados estratégicos para o desenvolvimento econômico e tecnológico do país, numa fala feita durante o evento que reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente Geraldo Alckmin.
Quais setores entram na lista de prioridades
Laboratórios de biotecnologia e pesquisas avançadas em saúde receberão apoio financeiro prioritário. (crédito: Unsplash / CC0)
A lista de segmentos contemplados pela Nova Indústria Brasil ajuda a entender o tamanho da ambição do programa. Entre as áreas estratégicas beneficiadas estão fertilizantes, máquinas agrícolas, insumos farmacêuticos ativos, biofármacos, terapias avançadas de saúde, mobilidade sustentável e, de forma explícita,
inteligência artificial — um sinal claro de que o governo brasileiro está tratando a IA não apenas como uma pauta de debate regulatório, mas como um setor produtivo prioritário dentro da estratégia industrial do país, ao lado de segmentos mais tradicionais da economia nacional.
Essa priorização da inteligência artificial dentro da política industrial não é um movimento isolado. Levantamentos recentes do setor de fomento mostram que BNDES, Finep e a Embrapii (Associação Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) já somam cerca de
R$ 10,5 bilhões em apoio a projetos ligados à inteligência artificial desde 2023 — um volume que demonstra a consistência do investimento público brasileiro nessa área ao longo dos últimos anos, e não apenas um anúncio pontual e isolado.
Um portal para orientar quem quer investir
Junto com o anúncio do novo aporte financeiro, o governo também lançou o portal
Investe Indústria Brasil, uma plataforma desenvolvida pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) para funcionar como uma espécie de mapa da política industrial do país. A ferramenta tem como objetivo registrar intenções de investimento de empresas interessadas e identificar gargalos que possam estar dificultando a execução de projetos em cada um dos segmentos estratégicos definidos pela NIB, funcionando como um canal direto entre o setor privado e a coordenação do programa.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o BNDES tem atuado não apenas como fonte de crédito, mas como catalisador de investimento privado dentro do programa — em quatro das seis frentes de atuação definidas pela NIB, o setor privado já responde pela maior parte dos recursos aplicados, o que sugere que o dinheiro público está sendo usado, ao menos em parte, para destravar investimentos privados que de outra forma poderiam não acontecer na mesma escala ou no mesmo ritmo.
O contexto histórico do programa e a retomada da ciência
Para entender o tamanho desse novo aporte, é preciso olhar para a trajetória da Nova Indústria Brasil desde seu início. O programa já havia batido suas próprias metas ainda no fim do ano anterior, quando o governo injetou R$ 300 bilhões na política industrial. Com o novo pacote de R$ 140 bilhões, a soma acumulada desde 2023 ultrapassa os R$ 750 bilhões — um crescimento expressivo que reflete, segundo dados do próprio ecossistema de fomento nacional, uma retomada do investimento público em ciência e tecnologia no Brasil depois de anos de retração.
Estudos recentes apontam que o investimento público brasileiro nessa área cresceu cerca de 30% entre 2021 e 2024, atingindo a marca de R$ 88,7 bilhões — uma reversão de tendência relevante depois de um período de cortes e contingenciamentos que marcou boa parte da década anterior.
Esse movimento de retomada também aparece refletido em outras frentes do ecossistema de fomento nacional. A Finep, por exemplo, lançou recentemente uma nova rodada do programa Tecnova, com R$ 360 milhões voltados especificamente para pequenas empresas que buscam desenvolver produtos e processos inovadores — reforçando que o apoio à inovação no país não se concentra apenas nos grandes aportes bilionários anunciados em cerimônias oficiais, mas também alcança o universo de micro, pequenas e médias empresas.
Sustentabilidade e transição energética entram na conta
O Fundo Clima do BNDES teve um salto histórico, impulsionando a agenda de sustentabilidade. (crédito: Unsplash / CC0)
Além do reforço à indústria propriamente dita, o evento de aniversário do BNDES também serviu de palco para anúncios ligados à transição energética e ao desenvolvimento sustentável. Mercadante destacou o crescimento expressivo do chamado Fundo Clima, hoje operando numa escala muito superior à registrada em períodos anteriores — segundo ele, o fundo saltou de uma média histórica de poucas centenas de milhões de reais por ano para algo em torno de
R$ 25,6 bilhões anuais, um salto que a própria instituição classificou como uma mudança de patamar. De acordo com o banco, essa expansão já teria contribuído para retirar ou evitar a emissão de 187 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera ao longo do período mais recente.
Uma das iniciativas ligadas a esse eixo de sustentabilidade prevê a aquisição de até
85 mil bicicletas elétricas, que serão disponibilizadas a entregadores de aplicativos com um custo de aquisição cerca de 25% inferior ao praticado atualmente no mercado — uma medida que combina a agenda de transição energética com uma categoria de trabalhadores que cresceu enormemente em número nos últimos anos.
Estratégia Nacional de longo prazo definida até 2034
O reforço financeiro para a NIB não veio sozinho. Poucos dias depois do anúncio do BNDES, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação formalizou, por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União, a
Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação para o período de 2024 a 2034 — um documento que deve funcionar como o principal instrumento de planejamento do ministério para a próxima década.
A norma prevê um prazo de 120 dias para que o país tenha um plano de ação detalhado, cobrindo o período de 2027 a 2031, com metas e iniciativas específicas para orientar políticas públicas, programas e projetos voltados ao setor. Um grupo de trabalho, com participação da Academia Brasileira de Ciências, foi instituído para coordenar a elaboração desse plano nos próximos meses.
A combinação entre o reforço financeiro imediato da NIB e a formalização de uma estratégia de longo prazo para ciência e tecnologia sinaliza um esforço de planejamento em duas velocidades: de um lado, recursos sendo liberados agora, com prazo definido até o fim de 2026; de outro, diretrizes pensadas para orientar a política pública do setor ao longo da próxima década inteira, num horizonte que atravessa, inclusive, diferentes governos.
O que isso significa na prática para o setor de tecnologia
Para o ecossistema brasileiro de tecnologia e inovação, o principal recado desses anúncios é a confirmação de que a inteligência artificial deixou de ser tratada como pauta exclusivamente regulatória — associada a debates sobre proteção de dados, direitos autorais e uso responsável — para ocupar também um espaço central nas políticas de fomento produtivo do país.
Startups, empresas de médio porte e grandes companhias que atuam com inteligência artificial, mobilidade sustentável, biotecnologia e outros segmentos estratégicos da NIB passam a ter, ao menos no papel, um volume maior de linhas de crédito e financiamento disponíveis até o fim de 2026, além de um canal mais claro — o novo portal Investe Indústria Brasil — para registrar suas intenções de investimento e sinalizar eventuais dificuldades encontradas pelo caminho.
Resta agora acompanhar a velocidade real de execução desses recursos. Historicamente, um dos maiores desafios de programas de fomento dessa magnitude não está no anúncio do dinheiro em si, mas na capacidade de fazer esse volume de recursos efetivamente chegar às empresas e projetos certos, dentro do prazo estabelecido e sem travas burocráticas que atrasem a liberação do crédito. Com o prazo definido até dezembro de 2026 para a aplicação desse novo aporte, os próximos meses devem mostrar se a Nova Indústria Brasil consegue converter, na prática, esse volume recorde de recursos em resultados concretos para o país.
Fontes: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES - Agência de Notícias), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Diário Oficial da União, G1 Economia.