A Academia Brasileira de Ciências (ABC) lançou um documento com propostas concretas para tirar o país do atraso tecnológico em relação às grandes economias mundiais. O texto reúne duas décadas de estudos e recomendações num roteiro único, com metas numéricas específicas para os próximos anos.
Investimento contínuo em ciência e inovação é apontado como pré-requisito para o desenvolvimento nacional. (crédito: Unsplash / CC0)
O documento, batizado de "O Futuro Não Pode Esperar: Ciência, Educação, Inovação e Soberania para um Projeto Nacional de Desenvolvimento", reúne duas décadas de estudos e recomendações da comunidade científica brasileira num roteiro único, com metas numéricas específicas para os próximos anos.
O diagnóstico: onde o Brasil está atrasado
O documento parte de um diagnóstico direto: apesar de uma recuperação recente nos investimentos em ciência e tecnologia, o Brasil segue distante das grandes economias mundiais nessa área. Os obstáculos identificados pela ABC são conhecidos por quem acompanha o setor de perto — financiamento instável de ano para ano, bolsas de pesquisa com valores defasados, desigualdade regional na distribuição de recursos e uma fuga contínua de pesquisadores qualificados para outros países.
Os números ajudam a entender a dimensão do problema. Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Brasil investiu, no levantamento mais recente disponível, cerca de 1,2% do PIB em ciência e tecnologia. Para efeito de comparação, países como Alemanha e Estados Unidos investem mais de 3% do PIB na mesma área, enquanto líderes mundiais nesse quesito, como Israel e Coreia do Sul, chegam a superar 4%. É justamente esse fosso que a ABC quer reduzir com seu plano.
A meta central: 2% do PIB em pesquisa, como política de Estado
A proposta mais ambiciosa do documento é elevar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento para
2% do PIB — praticamente dobrando o patamar atual. Mais importante do que o número em si, segundo a própria Academia, é o caráter dessa meta: a ABC defende que ciência e inovação deixem de ser tratadas como política de governo, sujeita a cortes e prioridades que mudam a cada eleição, e passem a funcionar como
política permanente de Estado, com orçamento garantido independentemente de quem esteja no comando do país.
Na prática, isso significaria dar mais previsibilidade para universidades, institutos de pesquisa e empresas inovadoras, permitindo que projetos de longo prazo não fiquem reféns de oscilações orçamentárias de curto prazo — um problema recorrente na história recente da ciência brasileira, marcada por cortes abruptos em anos de crise fiscal seguidos de tentativas de recuperação nos anos seguintes.
Educação técnica como aposta central
A ampliação do ensino técnico e profissionalizante é vista como essencial para aumentar a produtividade das empresas brasileiras. (crédito: Unsplash / CC0)
O segundo grande eixo do documento é a educação profissionalizante. A ABC propõe ampliar significativamente o ensino técnico no país, com a meta de atender cerca de metade dos estudantes do ensino médio até
2035. A proposta inclui a criação de uma rede estadual de colleges técnicos, inspirada em modelos internacionais que já demonstraram capacidade de aproximar formação profissional e desenvolvimento econômico regional.
A lógica por trás dessa aposta é direta: por mais que o Brasil aumente o investimento em pesquisa de ponta, sem mão de obra tecnicamente qualificada em escala, boa parte desse investimento corre o risco de não se transformar em produtividade real para a economia brasileira. Formar técnicos capacitados em quantidade suficiente é tratado, no documento, como pré-requisito para qualquer ambição maior de soberania tecnológica.
Seis áreas estratégicas para o futuro
O documento também detalha uma lista de setores considerados decisivos para a competitividade das próximas décadas:
inteligência artificial, bioeconomia, saúde digital, agricultura de precisão, materiais avançados e transição energética. Para cada uma dessas áreas, a proposta é criar Centros de Formação em Áreas Estratégicas, voltados especificamente a preparar profissionais e produzir pesquisa aplicada nesses campos.
A escolha desses seis setores não é aleatória: todos eles aparecem, com frequência crescente, no centro das disputas econômicas e geopolíticas entre as grandes potências mundiais — da corrida por modelos de inteligência artificial mais avançados até a competição por tecnologias de energia limpa e por sistemas agrícolas mais eficientes, área em que o Brasil já acumula vantagens naturais relevantes por conta de sua extensão territorial e clima.
Minerais críticos e soberania industrial
Num momento em que a disputa global por recursos naturais estratégicos se intensifica, a ABC recomenda a criação de uma política nacional específica para
minerais críticos — aqueles essenciais para baterias, semicondutores e outras tecnologias de ponta, e nos quais o Brasil possui reservas de peso. O ponto central da proposta não é apenas extrair e exportar essas riquezas, mas agregar valor por meio da industrialização interna, evitando repetir um padrão histórico da economia brasileira: exportar matéria-prima barata e importar de volta produtos de alto valor agregado fabricados a partir dela.
Esse tipo de estratégia — reter parte do processamento e da industrialização de recursos estratégicos dentro do próprio país — já é adotada por outras nações ricas em recursos naturais que tentam evitar ficar presas ao papel histórico de simples fornecedoras de commodities para economias mais industrializadas.
Clima, energia e saúde também entram no pacote
A transição para energias renováveis e a preservação da Amazônia estão no centro do debate climático da ABC. (crédito: Unsplash / CC0)
A emergência climática ocupa lugar de destaque no documento, com a ABC defendendo a redução gradual da dependência de combustíveis fósseis, investimento robusto em energias renováveis, desmatamento zero — com destaque específico para a
Amazônia — e um programa amplo de restauração florestal. Na área energética, as propostas incluem expandir a rede de transmissão elétrica, criar políticas de armazenamento de energia e fortalecer a cadeia produtiva do
hidrogênio verde, tecnologia considerada estratégica para a próxima fase da transição energética global.
A pandemia de Covid-19 também deixou marcas visíveis no documento: a Academia propõe ampliar a capacidade nacional de desenvolver vacinas, medicamentos e insumos estratégicos de saúde, reduzindo a dependência de fornecedores externos e fortalecendo aquilo que o próprio texto chama de soberania tecnológica em saúde — um aprendizado direto da escassez de insumos enfrentada pelo país durante a crise sanitária global.
Um documento pensado para quem vai decidir
Um detalhe estrutural chama atenção em relação a outros documentos semelhantes já produzidos pela comunidade científica brasileira ao longo dos anos: ao final de cada capítulo, o texto traz uma seção específica com recomendações direcionadas a diferentes esferas de poder — candidatos à Presidência da República, parlamentares e governos estaduais —, indicando responsabilidades concretas para cada um.
A intenção declarada é transformar um conjunto de recomendações técnicas em material de referência prático para quem efetivamente vai decidir sobre orçamento e política pública nos próximos anos, independentemente do resultado das disputas eleitorais.
Por que isso importa agora
O timing do documento não é casual. Enquanto grandes potências aceleram investimentos simultâneos em inteligência artificial, economia verde e minerais estratégicos — três frentes que já vêm redesenhando alianças econômicas e comerciais em todo o mundo —, a pergunta colocada pela Academia Brasileira de Ciências é direta: o Brasil pretende participar dessa corrida como protagonista, desenvolvendo tecnologia própria e agregando valor a seus próprios recursos, ou vai continuar na posição histórica de espectador e fornecedor de matéria-prima barata para quem já está mais avançado nessa disputa?
Mais do que uma lista de reivindicações do meio acadêmico, o documento funciona como um alerta sobre um padrão que se repete ao longo da história econômica recente: as transformações mais profundas de cada época costumam ser lideradas pelos países que investiram cedo e de forma consistente em conhecimento, formação de pessoal qualificado e tecnologia própria — e não por aqueles que apenas absorvem, anos depois, as inovações desenvolvidas em outros lugares.
Fontes: Academia Brasileira de Ciências (ABC), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Macke Consultoria.