A humanidade vai governar a inteligência artificial em conjunto, ou vai se deixar governar por ela? Essa foi a pergunta que abriu o maior encontro já realizado sobre o futuro da tecnologia: o Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial, reunido em Genebra, na Suíça, sob a bandeira da ONU.
Sede das Nações Unidas em Genebra, Suíça, local de abertura do Diálogo Global sobre Governança da IA. (crédito: Postimages)
Ao longo de dois dias, o encontro reuniu governos, gigantes de tecnologia, acadêmicos e organizações da sociedade civil em torno de uma pergunta que parece simples, mas não é: será possível que a IA beneficie toda a humanidade de forma seguro e justa, sem provocar aquilo que os próprios organizadores chamaram de "danos catastróficos"? A resposta, como ficou claro já nos primeiros discursos, está longe de ser consenso — mas o simples fato de reunir todos os países numa mesma sala, com peso de voto igual, já foi tratado como um marco em si.
Um "Armagedon da informação"
Um dos alertas mais duros do encontro veio de
Maria Ressa, jornalista filipina vencedora do
Prêmio Nobel da Paz e copresidente do Painel Científico Internacional Independente criado pela ONU para avaliar os riscos da IA. Ela relembrou que a primeira geração de inteligência artificial já havia sido usada para acelerar a propagação de mentiras nas redes sociais — e que, quando a informação carrega medo, raiva e ódio, ela se espalha mais rápido. Para Ressa, quando não é mais possível separar fato de ficção, a própria democracia fica comprometida. Ela resumiu esse cenário como um verdadeiro colapso da confiança pública na informação.
O outro copresidente do painel, o cientista da computação franco-canadense
Yoshua Bengio, trouxe um alerta técnico igualmente sério: segundo ele, a IA está se aproximando — ou já superando — as capacidades humanas em diversas áreas, avançando mais rápido do que a própria ciência consegue entender e do que os governos conseguem regular. Bengio afirmou que, diante das evidências crescentes de comportamento enganoso por parte de sistemas de IA, a ciência hoje simplesmente não tem como garantir que essa tecnologia não vá causar danos catastróficos — seja por conta própria, seja nas mãos de agentes mal-intencionados.
Um relatório de 40 cientistas para embasar o debate
Esses alertas não vieram isolados. Para preparar o terreno do encontro, um painel formado por
40 especialistas de 37 países divulgou, dias antes, um relatório preliminar com dados científicos independentes sobre os riscos e potenciais da IA. O documento reconhece que a tecnologia, usada de forma responsável, pode trazer benefícios reais e transformadores para pessoas ao redor do mundo — mas também deixa claro que os riscos são reais, e que, quanto mais os governos demorarem para agir, maiores esses riscos tendem a ficar.
É justamente esse equilíbrio — entre aproveitar o potencial da IA e conter seus perigos — que moveu o encontro em Genebra. Ao longo de dois dias, representantes de governos, big techs, universidades e organizações da sociedade civil discutiram os rumos de uma tecnologia que, segundo praticamente todos os participantes, já avança mais rápido do que as regras pensadas para contê-la.
Não é a primeira tentativa da ONU de organizar essa conversa: o próprio painel científico independente foi criado ainda em 2025, por mandato da Assembleia Geral, exatamente para fornecer uma base técnica neutra — sem interesses comerciais diretos — para as decisões que os países precisarão tomar nos próximos anos. A ideia é que esse tipo de avaliação científica coletiva sirva de contraponto às vozes das próprias empresas que desenvolvem os sistemas de IA, que até aqui dominaram boa parte do debate público sobre os riscos e benefícios da tecnologia.
Por que só agora todo mundo tem voz
Palais des Nations, local das principais assembleias diplomáticas da ONU na Suíça. (crédito: Postimages)
Até aqui, os modelos de regulação de IA ao redor do mundo foram moldados majoritariamente por países que já possuem setores avançados de tecnologia — enquanto nações mais expostas às consequências dessas mesmas ferramentas tiveram pouca ou nenhuma influência sobre como essas regras foram desenhadas. O Diálogo Global nasceu, entre outras coisas, para tentar corrigir esse desequilíbrio.
Criado por mandato da Assembleia Geral da ONU, o encontro deste ano foi o primeiro a garantir a todos os governos participação plena e igualdade de voz — incluindo países em desenvolvimento e nações do
Sul Global, que até então costumavam atuar apenas como observadores em fóruns desse tipo. A presidente da Assembleia Geral da ONU, a alemã
Annalena Baerbock, resumiu a meta como o fortalecimento da governança global da IA, garantindo equidade e desenvolvimento sustentável.
O Brasil teve seu momento em Genebra
O país marcou presença em pelo menos três frentes diferentes do encontro. Representando oficialmente o governo brasileiro, esteve
Carlos Manuel Baigorri, presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que participou de uma mesa-redonda sobre confiança digital e infraestrutura de inteligência artificial acessível para todos.
Do lado das políticas públicas locais,
Tatiana Roque, secretária de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, participou de um workshop sobre cidades inteligentes que usam IA para resolver problemas reais do dia a dia urbano. E, no momento mais simbólico da participação brasileira, a liderança indígena
Puyr Tembé, do povo Tembé, da Amazônia, foi uma das vozes convidadas para debater como o conhecimento tradicional e a gestão responsável do clima podem dialogar com o avanço tecnológico ético.
Essa combinação — um regulador de telecomunicações, uma gestora pública municipal e uma liderança indígena da Amazônia — diz bastante sobre como o Brasil tentou se posicionar no debate: não apenas como mercado consumidor de tecnologia estrangeira, mas como um país com vozes técnicas, urbanas e tradicionais próprias a oferecer para a conversa global.
O que está realmente em jogo
Vale ser honesto sobre os limites do encontro: o Diálogo Global não tem poder para aprovar leis ou tratados vinculantes — é, antes de tudo, um espaço de negociação e construção de consenso. Nenhum país sai de Genebra obrigado a mudar sua legislação nacional, e nenhuma empresa de tecnologia assina um compromisso juridicamente exigível ao final dos dois dias. Mas os organizadores tratam esse encontro como o ponto de partida para um futuro acordo sobre salvaguardas universalmente aceitas para o desenvolvimento e uso da inteligência artificial, algo que hoje simplesmente não existe em escala global.
A secretária-geral da União Internacional de Telecomunicações,
Doreen Bogdan-Martin, lembrou que ainda existem 2,2 bilhões de pessoas sem qualquer tipo de acesso ao mundo digital — um lembrete de que, para boa parte do planeta, a discussão sobre riscos avançados de IA ainda está distante da realidade mais básica de conectividade. Já o diretor-geral da Unesco,
Khaled El-Enany, defendeu que a diversidade cultural e linguística da humanidade precisa ser protegida ativamente à medida que sistemas de IA se espalham — para que a tecnologia amplie, em vez de apagar, a riqueza de vozes e culturas do mundo.
No fim das contas, o encontro em Genebra não resolve, sozinho, nenhum dos dilemas levantados por Ressa ou por Bengio. Mas ele marca uma mudança de postura: pela primeira vez, um debate desse porte sobre o futuro da inteligência artificial reuniu, com peso de voto igual, tanto as potências que lideram o desenvolvimento dessa tecnologia quanto os países que mais sentirão seus efeitos. Resta saber se essa mudança de postura vai se traduzir, nos próximos anos, em compromissos concretos.
Fontes: ONU News.