A cerca de 48 anos-luz da Terra, um planeta rochoso acaba de entrar para a história: é o primeiro do seu tipo, posicionado na zona habitável de sua estrela, com uma atmosfera confirmada de verdade por medição direta, provando que mundos rochosos podem reter seus gases por bilhões de anos.
Representação artística de um planeta habitável no espaço profundo. (crédito: Unsplash / CC0)
Existe uma pergunta que a humanidade faz há séculos e que, pela primeira vez, ganhou uma resposta parcial concreta: sim, é possível que um planeta rochoso, do tamanho certo, na distância certa da estrela, consiga manter uma atmosfera por bilhões de anos. E o planeta que provou isso tem nome, endereço e agora um lugar cativo nos livros de astronomia:
LHS 1140 b.
A descoberta, publicada na prestigiosa revista científica
Science e liderada por pesquisadores de Harvard e do Instituto Carnegie, é considerada um marco porque é a primeira vez que cientistas conseguem detectar diretamente uma atmosfera ao redor de um planeta rochoso posicionado dentro da chamada
zona habitável — a região ao redor de uma estrela onde a temperatura permite a existência de água líquida na superfície. Não é especulação, nem modelo teórico: é medição direta, feita com equipamento de verdade, apontado para o planeta certo, na hora certa.
Quem é o LHS 1140 b
O planeta fica a aproximadamente
48 anos-luz da Terra — perto, em termos astronômicos, mas ainda impossível de visitar com a tecnologia atual — orbitando uma anã vermelha antiga, um tipo de estrela menor e mais fria que o Sol. Ele foi descoberto em 2017 por uma equipe liderada pelo astrônomo
Jason Dittmann, mas só agora, quase dez anos depois, os cientistas conseguiram confirmar o que suspeitavam: esse mundo tem uma camada de gases ao seu redor.
Sua massa é 5,6 vezes maior que a da Terra e seu raio é 1,7 vezes maior, características que o colocam na categoria de
"super-Terra" — maior que o nosso planeta, mas ainda rochoso, e não um gigante gasoso. Ele completa uma volta ao redor de sua estrela a cada 24,7 dias, um período curto que só é possível porque está bem mais próximo da sua estrela do que a Terra está do Sol — mas como essa estrela é muito mais fraca e fria, a distância acaba caindo exatamente na faixa de temperatura ideal, apelidada carinhosamente pelos cientistas de
"zona de Cachinhos Dourados": nem quente demais, nem fria demais.
Como a descoberta aconteceu
Telescópio observando o espaço profundo sob um céu estrelado no Chile. (crédito: Unsplash / CC0)
A história por trás da confirmação é quase tão interessante quanto o resultado em si. Tudo começou com um modelo matemático desenvolvido do zero pelo pesquisador
Collin Cherubim, então doutorando em Harvard, para estudar como planetas rochosos evoluem ao longo do tempo. A partir desse modelo, ele fez uma previsão bem específica sobre o que esperar do LHS 1140 b — e decidiu testar essa previsão usando uma técnica normalmente reservada para estudar planetas gigantes gasosos, nunca antes aplicada a um planeta rochoso.
Para isso, a equipe usou um espectrógrafo instalado em um dos
telescópios Magalhães, no Observatório Las Campanas, no Chile — um instrumento chamado
WINERED, capaz de analisar a luz que atravessa a atmosfera de um planeta durante seu trânsito (o momento em que ele passa na frente da própria estrela, visto da Terra). Numa mesma noite de observação, os pesquisadores acompanharam simultaneamente o LHS 1140 b e outro planeta do mesmo sistema. O segundo não revelou nada de relevante. Já o primeiro trouxe uma assinatura clara e inconfundível: hélio, presente na atmosfera do planeta.
Segundo o próprio Cherubim, o resultado bateu exatamente com o que seu modelo teórico havia previsto — o tipo de confirmação que todo cientista sonha em ver na própria carreira. "Foi muito bom fechar todo o ciclo do método científico", resumiu.
Por que isso é tão difícil de encontrar
Para entender o tamanho da conquista, é preciso entender o problema que ela resolve. Estrelas anãs vermelhas — como a que o LHS 1140 b orbita — são o tipo de estrela mais comum de toda a Via Láctea. Só que elas têm um problema: permanecem "agitadas" por muito mais tempo do que estrelas parecidas com o Sol, soltando explosões de radiação intensa por bilhões de anos. Esse tipo de radiação costuma arrancar completamente a atmosfera de qualquer planeta próximo, o que levava a comunidade científica a duvidar que planetas rochosos ao redor desse tipo de estrela conseguissem manter uma atmosfera por muito tempo.
O LHS 1140 b prova que, pelo menos nesse caso, isso não é uma regra absoluta. Segundo os pesquisadores, a estrela do sistema já tem cerca de
seis bilhões de anos — mais velha que a fase de maior turbulência das anãs vermelhas —, o que ajuda a explicar como o planeta conseguiu preservar parte da sua atmosfera até hoje. Parte do hélio escapa lentamente para o espaço, mas isso também acontece com a própria atmosfera da Terra, então não chega a ser motivo de alarme.
Isso significa que há vida lá?
Representação de uma super-Terra com oceanos e cobertura de nuvens atmosféricas. (crédito: Unsplash / CC0)
Aqui vale um freio de mão importante: não. A equipe de pesquisa foi enfática em dizer que a descoberta não confirma vida no planeta, nem prova diretamente que existe água na superfície. O que ela mostra é que as condições básicas para isso existir estão presentes — um planeta rochoso, na temperatura certa, com uma atmosfera capaz de reter calor o suficiente para sustentar um efeito estufa moderado, o tipo de condição que, na Teoria, favorece a existência de água líquida.
Segundo os próprios pesquisadores, o LHS 1140 b reúne mais características associadas à habitabilidade do que praticamente qualquer outro exoplaneta conhecido até hoje — o que é uma frase forte, considerando que já foram catalogados mais de
seis mil planetas fora do Sistema Solar desde a primeira confirmação, há pouco mais de três décadas. Mesmo assim, é apenas o começo de uma investigação mais longa: os cientistas agora vão tentar identificar outros gases presentes na atmosfera, na esperança de encontrar sinais mais diretos de água ou de condições realmente favoráveis à vida.
Por que isso importa para além da ciência pura
Pode parecer só mais uma notícia de astronomia, mas o impacto dela vai além da curiosidade. Cada vez que a ciência confirma que um tipo específico de planeta consegue manter atmosfera em condições hostis, ela reduz a lista de "planetas impossíveis" e aumenta a lista de lugares que valem a pena observar com mais atenção — inclusive com equipamentos mais avançados, como o
Telescópio Espacial James Webb, hoje em operação, e o futuro
Observatório de Mundos Habitáveis, ainda em planejamento pela NASA.
Na prática, descobertas como essa funcionam como um mapa sendo desenhado aos poucos: cada exoplaneta confirmado com atmosfera é uma peça a mais no quebra-cabeça de onde, exatamente, a humanidade deveria apontar seus telescópios mais potentes na busca por sinais de vida fora da Terra. E o fato de o LHS 1140 b estar relativamente perto — 48 anos-luz é muito, mas é pouco perto dos milhares ou milhões de anos-luz de outros exoplanetas conhecidos — significa que futuras observações conseguirão estudá-lo com um nível de detalhe espetacular.
Não é exagero dizer que esse tipo de achado é uma resposta parcial a uma das perguntas mais antigas da humanidade: estamos sozinhos no Universo? Ainda não temos a resposta completa. Mas, pela primeira vez, temos um planeta rochoso, na distância certa, com atmosfera confirmada — e isso, por si só, já é motivo de comemoração entre os cientistas.
Fonte: Olhar Digital (olhardigital.com.br).